E a criatividade surgia a cada tragada.Branca e esquálida, ela estava sentada no café com as mãos e pernas inquietas, ansiava nervosa por idéias.Onde estavam?_Será que não está fazendo mais efeito?-questionou ela.Já era o terceiro maço de cigarros daquela tarde de outono e ela havia produzido apenas 30folhas.
_Não importa.Estou atrasada para o médico, não agüento mais.- reclamou ela das freqüentes tosses incessantes e dores no peito. Então apressada pegou suas coisas ,pagou a conta e saiu à procura de um táxi.
Nada demais, o médico apenas seguiu o mesmo ritual que todos os outros faziam quando se tratava de fumantes compulsivos; “Quantos cigarros fuma por dia? Maços? É muito! Tente diminuir... suas tosses devem ser de tanta agressão pulmonar, mas faça esses exames para termos certeza. Aqui, este xarope e pastilhas podem ajudar. Certo? Mas tente diminuir...” e mais e mais advertências contra os possíveis males do cigarro.Ah! Quase ia me esquecendo dos quase religiosos que pregavam rezas e profecias de advertências: câncer,impotência,necrose,aborto espontâneo,câncer... e câncer.Ela provavelmente pensa:
“A vida é breve,não!?” Sai entediada do consultório balbuciando: “todos iguais: o cigarro vai te matar”.
Corre,corre,corre... vai perder o metrô.Perdeu.”Vou andando”.As folhas secas em suas cores disformes do alaranjado caem,primeiras folhas outonais.”Como o vento está frio”. Abre a bolsa: “onde está o maldito cigarro?”.Sai batom, sai chave, sai agenda, sai pager ,também sai a caneta,o celular,a maquiagem...”Cadê a droga do cigarro!?” - o cigarro é uma droga.Sai o lenço,a carteira,as folhas,o absorvente,o palm,os óculos,o isqueiro ... ”Achei a cartela!”.Estava vazia: “Droga!” -droga mesmo.
Corre,corre,corre que vai chover.Entra afobada em um supermercado de esquina que só os moradores da redondeza freqüentam.Ela achou o piso xadrez cafona e a música ambiente fora de moda.Tem quatro pessoas na sua frente,mas parece vinte.As mãos já estão suadas,parece que ela quer o cigarro.O rosto já se contorce,faz cara de saco cheio e assopra a mecha que caiu na testa.”Que cara estranho”,observa o movimento de entra e sai do mercado.
_Parados!Isto é um assalto!
“O cara estranho”,ela pensa.Nesse momento ela nem se importa com o que acontece;é a vez dela no caixa.
_É um assalto!Vamo, quero todas as bolsas aqui!Libera o caixa!
_Não!Pode esperar!É a minha vez no caixa- disse queixosamente pondo as mãos fracas no rosto.
_Não ta vendo que isso aqui é um assalto?- ele berrava exibindo suas veias suadas,quase estouradas na garganta.
_Eu quero o cigarro!- só que ele jogou um cigarro qualquer e ela berrou: ”Ahhhhhhh!Eu quero o cigarro!Malboro light,por favor.”.O assaltante impaciente colocou o maço na boca dela: “Agora cala a boca e passa a bolsa.”.Ela não passou.Na verdade, ela abriu a bolsa e começou a tirar tudo de novo: batom,chave,agenda, maquiagem...
_O que foi agora?!-o assaltante delirava balançando aquela 38 pelo ar.
_Fogo!Não acho o isqueiro.
_Eu te dou o fogo.- e atirou no fígado dela.
Ela morreu;e foi culpa do cigarro.
4 comentários:
Tenho impressão que já li este texto seu... é possível???
Como todos seus textos eu adorei e te encho com meus elogios...
Não tchela.
vc matou a moça.
cigarro não mata distrai
palavra de boemio.
adorei.
tchela >D caí aqui no seu blog por acaso; mais, mto bons seus textos. eu não achei o texto que vc tinha feito do sweeney todd, depois me fala onde tá ;}
sim o cigarro a matou
matou da mesma forma como mata muitos fumantes,
e não só fumantes,
qualquer vicio deixa
as pessoas irracionais
e acabam morrendo
de burrice
qual o texto com a linha de reciocinio q vc tinha me falado?
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